Ontem recebi a seguinte mensagem no celular:
Bomdia meu tigrao.voce.quer.'pao ou .meu.pombao antes do feriado?bejos me lig q.te.pas um numero
Conheço mulheres estranhas, uma ou outra deve ter o meu número. Não me vem à mente, porém, alguma que escreva bobagens de maneira tão funkeira. Prefiro mulheres que escrevam bobagens de forma clara – melhor ainda: artística. Só pode ser alguma pegadinha para clonar celular. (Parece estranho clonar um plano pré-pago, mas enfim... as pessoas fazem coisas incompreensíveis, como assistir Zorra Total.)
E é impressão minha ou "me liga que te passo um número" não faz nenhum sentido? Ou não era isso que estava escrito? Seria esta a última parte da mensagem secreta do Golf e do pão?
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
sábado, 1 de setembro de 2007
Entusiastas
Dedicado à S!
Se eu pudesse realmente escolher o que quero ser, seria entusiasta. Diferente do expert, que honra o compromisso profissional de saber tudo o que sabe, o entusiasta sabe porque gosta. A simples junção de "compromisso" e "profissional" na mesma sentença deve ser o bastante para convencer alguém de que os dias de um expert são chatos: em vez de trabalhar apenas com sua especialidade, algo que gostaria muito de fazer, precisa distorcê-la e adaptá-la para tornar-se profissionalmente (e, provavelmente, comercialmente) viável. O expert é um vendido.
O entusiasta tem a seu favor a informalidade, mas conservando ainda o respeito das pessoas à sua volta – que é o que importa, afinal: eu não preciso do respeito dos chineses1. Os amadores, por sua vez, até ganham a simpatia de parentes e amigos, mas nem com estes têm credibilidade. Você não chamaria um amador para resolver um problema ou responder uma pergunta complexa. O amador é uma curiosidade.
E temos o profissional regular. Este é o mais desprezível de todos: faz o que faz pelo dinheiro, não há sequer garantias de que goste do que faz. Se o expert é o vendido, o profissional é a versão pirata: funcional, mas duvidoso na melhor das hipóteses. As pessoas só confiam nele porque há algum documento afirmando que é confiável. Você acaba tendo que confiar também em quem fez tal documento, e na forma como foi adquirido. É muita confiança para pouca confiabilidade.
Com tudo isso esclarecido, basta achar um jeito de ganhar dinheiro e permanecer entusiasta.
Exemplos: O Hique é um fotógrafo entusiasta. Eu sou um tipógrafo amador. O Sagaz é um expert em design de jogos. O marketing é uma atividade estritamente profissional2.
1 Por favor, gente, eu amo os chineses! De forma alguma penso mal deles, foram os primeiros que me vieram à cabeça simplesmente porque moram longe. Sério. Poderiam ser os japoneses também, ou qualquer um que você encontre depois de cavar para baixo até o outro lado do globo.
Tudo bem, "amo" foi um exagero.
2 Gostaria de registrar aqui meu testamento informal, apenas por garantia, e deixar tudo para minha irmã. Ah, e eu quero ser cremado, mas não deixem a Cassi tomar parte disso.
Se eu pudesse realmente escolher o que quero ser, seria entusiasta. Diferente do expert, que honra o compromisso profissional de saber tudo o que sabe, o entusiasta sabe porque gosta. A simples junção de "compromisso" e "profissional" na mesma sentença deve ser o bastante para convencer alguém de que os dias de um expert são chatos: em vez de trabalhar apenas com sua especialidade, algo que gostaria muito de fazer, precisa distorcê-la e adaptá-la para tornar-se profissionalmente (e, provavelmente, comercialmente) viável. O expert é um vendido.
O entusiasta tem a seu favor a informalidade, mas conservando ainda o respeito das pessoas à sua volta – que é o que importa, afinal: eu não preciso do respeito dos chineses1. Os amadores, por sua vez, até ganham a simpatia de parentes e amigos, mas nem com estes têm credibilidade. Você não chamaria um amador para resolver um problema ou responder uma pergunta complexa. O amador é uma curiosidade.
E temos o profissional regular. Este é o mais desprezível de todos: faz o que faz pelo dinheiro, não há sequer garantias de que goste do que faz. Se o expert é o vendido, o profissional é a versão pirata: funcional, mas duvidoso na melhor das hipóteses. As pessoas só confiam nele porque há algum documento afirmando que é confiável. Você acaba tendo que confiar também em quem fez tal documento, e na forma como foi adquirido. É muita confiança para pouca confiabilidade.
Com tudo isso esclarecido, basta achar um jeito de ganhar dinheiro e permanecer entusiasta.
Exemplos: O Hique é um fotógrafo entusiasta. Eu sou um tipógrafo amador. O Sagaz é um expert em design de jogos. O marketing é uma atividade estritamente profissional2.
1 Por favor, gente, eu amo os chineses! De forma alguma penso mal deles, foram os primeiros que me vieram à cabeça simplesmente porque moram longe. Sério. Poderiam ser os japoneses também, ou qualquer um que você encontre depois de cavar para baixo até o outro lado do globo.
Tudo bem, "amo" foi um exagero.
2 Gostaria de registrar aqui meu testamento informal, apenas por garantia, e deixar tudo para minha irmã. Ah, e eu quero ser cremado, mas não deixem a Cassi tomar parte disso.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Fruto das conversas
Estava dia desses pensando em alguma coisa quando subitamente o assunto mudou para "mutantes". Não sei porquê, essas guinadas simplesmente acontecem. Os mutantes são a solução mágica para aqueles momentos em que você precisa explicar alguma parte inconsistente do enredo, mas não pode recorrer a vampiros – como se mutações fossem sempre coisas legais e extraordinárias1. Pois bem: vamos partir da hipótese de que você não é um fanático que vai espernear e parar de ler assim que Darwin for citado. (Aliás, a teoria da seleção natural nem é a minha favorita; estou apenas partindo da idéia mais aceita pelos cientistas.) Mutações seriam desvios relativamente pequenos em relação ao padrão de algum organismo – o que infelizmente exclui a habilidade de lançar lasers pelos olhos. Mutações que favoreçam a sobrevivência dos seus portadores seriam gradualmente inseridas numa população como o novo padrão, desde que sua origem fosse genética e transferível aos descendentes.
Gostaria de interromper para apresentar a minha teoria favorita da evolução das coisas: todas as espécies possíveis existiram simultaneamente em pelo menos algum porto da história. Incluindo girafas com pescoço ligeiramente mais curto, aquelas de pescoço médio e as infelizes que eram alvo de piada dos machos de pescoço longo. Fósseis das "etapas intermediárias", como aqueles cavalinhos pequenininhos, seriam apenas os restos normais de uma espécie normal que vivia na mesma época dos cavalos normais, e não antes destes e depois dos cavalos microscópicos. Os cavalinhos pequenininhos não conseguiram sobreviver como espécie porque uma pedra caiu na cabeça deles. Quase todas as espécies que não existem hoje deixaram de existir porque uma pedra caiu na cabeça delas. Incluindo os peixes. Com exceção da parte das pedras, minha teoria é perfeitamente razoável e não contraria diretamente nem as crenças religiosas nem as evidências paleontológicas, o que comprova que é a melhor teoria.
Obrigado. Continuando, o ponto-chave da evolução darwiniana é a reprodução, uma vez que a mutação se estabelece como nova norma através da substituição gradual dos membros da população padrão. Mutações que favoreçam a sobrevivência contribuiriam indiretamente para a reprodução, mas percebam: mutações que favoreçam a reprodução contribuiriam diretamente para... bom, para a reprodução. (O final da frase não foi uma grande surpresa.) Um mutante com características reprodutivas mais favoráveis que a média semearia sua mutação com mais facilidade que os outros mutantes. Parece seguro assumir que esses super-reprodutores constituiriam o novo padrão após o tempo médio que leva para uma mutação constituir padrão, sei lá quanto tempo é, e níveis ainda mais avançados de eficiência reprodutiva seriam alcançados com o aparecimento de novos super-reprodutores com características cada vez mais favoráveis. Resumindo: bichos bons em fazer sexo virariam a regra da espécie porque se reproduzem através do que fazem melhor. O objetivo final da evolução dos seres sexuados seria, portanto, criar máquinas de sexo. Olhando por esse ângulo, os seres humanos parecem estar no caminho certo. Não posso deixar de imaginar, porém, como seria se os humanos não se reproduzissem através do sexo e sim por outro meio como, digamos, conversas sobre o sentido da vida. O mundo estaria hoje repleto de seres muito capazes de conversar sobre o sentido da vida.
1 Não estou de forma alguma defendendo vampiros como coisas legais e extraordinárias. Muito pelo contrário. E o contrário de "legais" e "extraordinários" é "chatos" e "figurantes". O contrário de "legais" não é "piratas", porque os piratas são legais – assim como os ninja, os zumbis e os robôs.
Gostaria de interromper para apresentar a minha teoria favorita da evolução das coisas: todas as espécies possíveis existiram simultaneamente em pelo menos algum porto da história. Incluindo girafas com pescoço ligeiramente mais curto, aquelas de pescoço médio e as infelizes que eram alvo de piada dos machos de pescoço longo. Fósseis das "etapas intermediárias", como aqueles cavalinhos pequenininhos, seriam apenas os restos normais de uma espécie normal que vivia na mesma época dos cavalos normais, e não antes destes e depois dos cavalos microscópicos. Os cavalinhos pequenininhos não conseguiram sobreviver como espécie porque uma pedra caiu na cabeça deles. Quase todas as espécies que não existem hoje deixaram de existir porque uma pedra caiu na cabeça delas. Incluindo os peixes. Com exceção da parte das pedras, minha teoria é perfeitamente razoável e não contraria diretamente nem as crenças religiosas nem as evidências paleontológicas, o que comprova que é a melhor teoria.
Obrigado. Continuando, o ponto-chave da evolução darwiniana é a reprodução, uma vez que a mutação se estabelece como nova norma através da substituição gradual dos membros da população padrão. Mutações que favoreçam a sobrevivência contribuiriam indiretamente para a reprodução, mas percebam: mutações que favoreçam a reprodução contribuiriam diretamente para... bom, para a reprodução. (O final da frase não foi uma grande surpresa.) Um mutante com características reprodutivas mais favoráveis que a média semearia sua mutação com mais facilidade que os outros mutantes. Parece seguro assumir que esses super-reprodutores constituiriam o novo padrão após o tempo médio que leva para uma mutação constituir padrão, sei lá quanto tempo é, e níveis ainda mais avançados de eficiência reprodutiva seriam alcançados com o aparecimento de novos super-reprodutores com características cada vez mais favoráveis. Resumindo: bichos bons em fazer sexo virariam a regra da espécie porque se reproduzem através do que fazem melhor. O objetivo final da evolução dos seres sexuados seria, portanto, criar máquinas de sexo. Olhando por esse ângulo, os seres humanos parecem estar no caminho certo. Não posso deixar de imaginar, porém, como seria se os humanos não se reproduzissem através do sexo e sim por outro meio como, digamos, conversas sobre o sentido da vida. O mundo estaria hoje repleto de seres muito capazes de conversar sobre o sentido da vida.
1 Não estou de forma alguma defendendo vampiros como coisas legais e extraordinárias. Muito pelo contrário. E o contrário de "legais" e "extraordinários" é "chatos" e "figurantes". O contrário de "legais" não é "piratas", porque os piratas são legais – assim como os ninja, os zumbis e os robôs.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Inflamável
Às vezes eu explodo, mas raramente. Pouca gente sabe, pouca gente viu. Passei todos os anos de faculdade sem nenhuma ocorrência, então quem me conhece dessa época não sabe. Ao menos, não viu. Nos tempos de escola técnica, era mais impulsivo, mais explosivo. Achei que isso estava indo embora, mas já não sei mais. E essa é a minha justificativa: eu sou assim.
Sentia-me ótimo na segunda-feira. O domingo foi preguiçoso; na noite de sexta, havia me divertido com amigos. (Não lembro do sábado, mas lembrar dois de três dias já é lucro.) Era uma segunda-feira de bom humor. Era uma segunda-feira depois de dois anos de aporrinhações, porém – não que isso faça parecer menos inadequado, agora. Dois anos de pessoas cobrando de mim o que elas mesmas deveriam estar fazendo, dois anos me sentindo metade bode espiatório, metade soldado desconhecido. Dois anos sendo o único que nunca tinha tempo livre para bater papo – ou descansar os braços, talvez? Dois anos em que metade das pessoas me procuraram querendo soluções ou respostas que não me cabiam, e tendo que me entender com a outra metade sempre que cedia à primeira. Olhando o cenário geral, não era uma segunda-feira tão boa, afinal. Essa é mais ou menos a minha desculpa.
Lá estava eu, quietinho. Não calado, engraçadinho até; estava de bom humor. Vieram me pedir uma solução. Coisas precisavam ser feitas, e alguém tinha que dar o primeiro empurrãozinho. "Não eu, você sabe a quem cabe isso." Mas a pessoa não estava lá. Que mal faria se eu decidisse por ela? "Eu não tenho autoridade, não tenho autonomia para isso." Não era grande coisa, só era necessário dar uma resposta. "Não posso, não sei! Você sabe a quem perguntar!" Mas a pessoa não estava lá. "PORRA, façam! Façam essa merda, façam o que quiserem! Eu não ligo! Mas paguem do seu dinheiro se der errado, lasquem os ouvidos vocês, depois! Por que me envolver nisso? Não sou gerente, não sou supervisor, eu sou a porra de um empregado low-level; se o gerente não sabe o que fazer, não sou eu quem vai saber!"
Em minha defesa, tive a delicadeza de explodir em tom moderado, para não alarmar os clientes na reunião ao lado. Ainda assim, alarmei o interlocutor; ficou sem muita reação, depois disse que eu estava louco. Eu sou louco, todo eles são. Só porque nunca havia explodido, não deveriam supor que nunca aconteceria. E explodiria de novo se fosse preciso, pois dois minutos depois meu humor estava renovado. Acho que é o único comportamento errático que me permito: descarregar a pressão interna nos outros e depois agir como se nada tivesse ocorrido. Eu gosto de explodir, e justamente por isso venho me policiando há anos. É como um vício que você tenta domar.
Dei-me conta de que havia agido de modo descabido quando reencontrei essa pessoa pouco depois. É justamente meu melhor amigo lá dentro, um dos que estiveram comigo na sexta-feira anterior. Não me olhava nos olhos; quando muito, olhava vagamente na minha direção. E eu não sou o tipo de pessoa que intimida olhares alheios, sou sempre o primeiro a evitar o contato. E ele é justamente o tipo de pessoa que intimida e vasculha a sua alma até você ceder, mas claramente não fazia idéia do que estava acontecendo agora. Não sei se ele estava envergonhado ou furioso ou magoado; não sei vasculhar almas.
Pedi-lhe desculpas depois, mas sou realmente terrível para me desculpar. Não gosto, não sei; causa-me agonia pensar no que dizer. Não por orgulho, simplesmente não sei medir essas coisas. Não consigo perceber se estou exagerando ou se estou subestimando os sentimentos dos outros. Acabo sempre agindo como se tivesse cometido um erro mortal – e como se pede desculpas por isso? Fui adestrado para não errar, e principalmente para não errar de forma tão grosseira.
Ninguém pode ser tão incapaz? Pois comecei assim: "Não vou te pedir desculpas pelas coisas que disse, mas você não merece que eu fale do jeito que falei." Digam-me, que desgraça foi essa? No lugar dele, eu teria devolvido um soco; ele foi educado o bastante para fingir que o pedido era suficiente. Eu queria realmente dizer tudo o que havia dito antes, e vou recusar exploração daqui em diante, mas eu disse para a pessoa errada. Ele não é o problema, é justamente uma das pessoas que tornam o lugar suportável. Eu estava fazendo várias coisas que não se faz a um amigo; pelo resto do dia, era eu quem não conseguia olhar diretamente. Estou cada vez mais convencido que não sei lidar com mais de uma pessoa de cada vez, correndo o risco de misturar as coisas.
Hoje ele estava agindo como se nada tivesse acontecido. Eu deveria tentar me explicar, mas não sei como. Vou acabar fingindo que nada aconteceu e que tudo se resolveu sozinho. Justamente o que odeio que façam comigo; as coisas nunca se resolvem sozinhas.
Sentia-me ótimo na segunda-feira. O domingo foi preguiçoso; na noite de sexta, havia me divertido com amigos. (Não lembro do sábado, mas lembrar dois de três dias já é lucro.) Era uma segunda-feira de bom humor. Era uma segunda-feira depois de dois anos de aporrinhações, porém – não que isso faça parecer menos inadequado, agora. Dois anos de pessoas cobrando de mim o que elas mesmas deveriam estar fazendo, dois anos me sentindo metade bode espiatório, metade soldado desconhecido. Dois anos sendo o único que nunca tinha tempo livre para bater papo – ou descansar os braços, talvez? Dois anos em que metade das pessoas me procuraram querendo soluções ou respostas que não me cabiam, e tendo que me entender com a outra metade sempre que cedia à primeira. Olhando o cenário geral, não era uma segunda-feira tão boa, afinal. Essa é mais ou menos a minha desculpa.
Lá estava eu, quietinho. Não calado, engraçadinho até; estava de bom humor. Vieram me pedir uma solução. Coisas precisavam ser feitas, e alguém tinha que dar o primeiro empurrãozinho. "Não eu, você sabe a quem cabe isso." Mas a pessoa não estava lá. Que mal faria se eu decidisse por ela? "Eu não tenho autoridade, não tenho autonomia para isso." Não era grande coisa, só era necessário dar uma resposta. "Não posso, não sei! Você sabe a quem perguntar!" Mas a pessoa não estava lá. "PORRA, façam! Façam essa merda, façam o que quiserem! Eu não ligo! Mas paguem do seu dinheiro se der errado, lasquem os ouvidos vocês, depois! Por que me envolver nisso? Não sou gerente, não sou supervisor, eu sou a porra de um empregado low-level; se o gerente não sabe o que fazer, não sou eu quem vai saber!"
Em minha defesa, tive a delicadeza de explodir em tom moderado, para não alarmar os clientes na reunião ao lado. Ainda assim, alarmei o interlocutor; ficou sem muita reação, depois disse que eu estava louco. Eu sou louco, todo eles são. Só porque nunca havia explodido, não deveriam supor que nunca aconteceria. E explodiria de novo se fosse preciso, pois dois minutos depois meu humor estava renovado. Acho que é o único comportamento errático que me permito: descarregar a pressão interna nos outros e depois agir como se nada tivesse ocorrido. Eu gosto de explodir, e justamente por isso venho me policiando há anos. É como um vício que você tenta domar.
Dei-me conta de que havia agido de modo descabido quando reencontrei essa pessoa pouco depois. É justamente meu melhor amigo lá dentro, um dos que estiveram comigo na sexta-feira anterior. Não me olhava nos olhos; quando muito, olhava vagamente na minha direção. E eu não sou o tipo de pessoa que intimida olhares alheios, sou sempre o primeiro a evitar o contato. E ele é justamente o tipo de pessoa que intimida e vasculha a sua alma até você ceder, mas claramente não fazia idéia do que estava acontecendo agora. Não sei se ele estava envergonhado ou furioso ou magoado; não sei vasculhar almas.
Pedi-lhe desculpas depois, mas sou realmente terrível para me desculpar. Não gosto, não sei; causa-me agonia pensar no que dizer. Não por orgulho, simplesmente não sei medir essas coisas. Não consigo perceber se estou exagerando ou se estou subestimando os sentimentos dos outros. Acabo sempre agindo como se tivesse cometido um erro mortal – e como se pede desculpas por isso? Fui adestrado para não errar, e principalmente para não errar de forma tão grosseira.
Ninguém pode ser tão incapaz? Pois comecei assim: "Não vou te pedir desculpas pelas coisas que disse, mas você não merece que eu fale do jeito que falei." Digam-me, que desgraça foi essa? No lugar dele, eu teria devolvido um soco; ele foi educado o bastante para fingir que o pedido era suficiente. Eu queria realmente dizer tudo o que havia dito antes, e vou recusar exploração daqui em diante, mas eu disse para a pessoa errada. Ele não é o problema, é justamente uma das pessoas que tornam o lugar suportável. Eu estava fazendo várias coisas que não se faz a um amigo; pelo resto do dia, era eu quem não conseguia olhar diretamente. Estou cada vez mais convencido que não sei lidar com mais de uma pessoa de cada vez, correndo o risco de misturar as coisas.
Hoje ele estava agindo como se nada tivesse acontecido. Eu deveria tentar me explicar, mas não sei como. Vou acabar fingindo que nada aconteceu e que tudo se resolveu sozinho. Justamente o que odeio que façam comigo; as coisas nunca se resolvem sozinhas.
domingo, 12 de agosto de 2007
Same old shit, new crappy suit
Estava lendo um artigo sobre álbuns conceituais e, a certa altura, o Scorpions foi citado com seu lançamento de 2007, Humanity - Hour I. Scorpions? Ainda existe? Digo: eles insistem nisso? Enfim, é domingo, ainda estou de pijamas, não é exatamente o ponto mais produtivo da semana; segui o link para ouvir amostras das novas músicas.
Para quem não lembra do Scorpions, eles são aquela banda cuja maior contribuição para a música foi ficar ao redor do Michael Schenker. Eles também são conhecidos por ter como vocalista um alemão fanho como uma foca. Finalmente, o Scorpions serviu de inspiração para o nascimento de inúmeras entidades voltadas à realização de eventos, como a Scorpions Eventos (destaque para a linda apresentação do website, especialmente o nome espelhado dentro do escorpião) e a Banda Scorpions (porque adicionar "Banda" ao nome é modo mais inteligente de evitar um processo judicial – não que a prioridade dos artistas europeus em geral seja processar bandas de baile de Araranguá/SC).
Se você estiver disposto a baixar Humanity - Hour I para analisar com cuidado o atual estado de evolução do Scorpions, o problema é seu. Eu me limitei a ouvir as amostras do site e já foi muito. Em minha avaliação de 7 minutos, pude constatar que (1) Klaus Meine está menos fanho, o que é o mínimo que ele poderia fazer e (2) eles não têm o menor escrúpulo em tentar explorar o filão do "rock moderno", incluindo bases de metal e um leve toque de canguru music. Alguém por favor ouça a faixa 321 e me diga que é uma música do Scorpions, e não uma tentativa de emplacar nas mesmas rádios que o Three Days Grace. O que é deprimente (para eles; eu não ligo a mínima), porque eles certamente não vão conseguir. É o mesmo caso do Metallica querendo ganhar dinheiro com nu metal, sendo que existem milhares de bandas mais novas (entenda-se: com mais fôlego e mais contato com o público predominantemente teen), mais honestas* e menos chatas.
Diretamente da página com as amostras, podemos extrair a seguinte pérola (tradução livre):
"[Os membros do] SCORPIONS, a mais bem-sucedida [*cof* defina 'sucesso'] exportação musical alemã, estão posicionados para 'picar' mais uma vez e planejam um ataque frontal na artéria musical [como é que é?] de fãs de rock ao redor do globo com seu novo álbum, HUMANITY - HOUR I. 35 anos depois do lançamento de seu álbum de estréia, LONESOME CROW, [Os membros do] SCORPIONS acreditam que tenham atingido um novo pico criativo [*cof-cof-cof*, aah!, morte] em sua impressionante [*cof*] carreira."
Quero crer que isso foi escrito pelo estagiário e que a banda nem chegou a ler o texto do website. (Segundo a lenda, não seria a primeira vez que estariam boiando em algum assunto menor relacionado à banda.)
Buscando no Google mais informações para esculachar o Scorpions de forma consistente, encontrei um tal álbum Unbreakable (2004) que já seguia a mesma linha musical de engordar a aposentadoria fazendo o mesmo que todo mundo está fazendo na MTV. Aparentemente, fez sucesso com os fãs da fase clássica, sob o argumento de ser melhor que o lixo produzido nos anos anteriores [citation needed].
* Pois está claro que o Metallica não é uma banda de honest metal.
Para quem não lembra do Scorpions, eles são aquela banda cuja maior contribuição para a música foi ficar ao redor do Michael Schenker. Eles também são conhecidos por ter como vocalista um alemão fanho como uma foca. Finalmente, o Scorpions serviu de inspiração para o nascimento de inúmeras entidades voltadas à realização de eventos, como a Scorpions Eventos (destaque para a linda apresentação do website, especialmente o nome espelhado dentro do escorpião) e a Banda Scorpions (porque adicionar "Banda" ao nome é modo mais inteligente de evitar um processo judicial – não que a prioridade dos artistas europeus em geral seja processar bandas de baile de Araranguá/SC).
Se você estiver disposto a baixar Humanity - Hour I para analisar com cuidado o atual estado de evolução do Scorpions, o problema é seu. Eu me limitei a ouvir as amostras do site e já foi muito. Em minha avaliação de 7 minutos, pude constatar que (1) Klaus Meine está menos fanho, o que é o mínimo que ele poderia fazer e (2) eles não têm o menor escrúpulo em tentar explorar o filão do "rock moderno", incluindo bases de metal e um leve toque de canguru music. Alguém por favor ouça a faixa 321 e me diga que é uma música do Scorpions, e não uma tentativa de emplacar nas mesmas rádios que o Three Days Grace. O que é deprimente (para eles; eu não ligo a mínima), porque eles certamente não vão conseguir. É o mesmo caso do Metallica querendo ganhar dinheiro com nu metal, sendo que existem milhares de bandas mais novas (entenda-se: com mais fôlego e mais contato com o público predominantemente teen), mais honestas* e menos chatas.
Diretamente da página com as amostras, podemos extrair a seguinte pérola (tradução livre):
"[Os membros do] SCORPIONS, a mais bem-sucedida [*cof* defina 'sucesso'] exportação musical alemã, estão posicionados para 'picar' mais uma vez e planejam um ataque frontal na artéria musical [como é que é?] de fãs de rock ao redor do globo com seu novo álbum, HUMANITY - HOUR I. 35 anos depois do lançamento de seu álbum de estréia, LONESOME CROW, [Os membros do] SCORPIONS acreditam que tenham atingido um novo pico criativo [*cof-cof-cof*, aah!, morte] em sua impressionante [*cof*] carreira."
Quero crer que isso foi escrito pelo estagiário e que a banda nem chegou a ler o texto do website. (Segundo a lenda, não seria a primeira vez que estariam boiando em algum assunto menor relacionado à banda.)
Buscando no Google mais informações para esculachar o Scorpions de forma consistente, encontrei um tal álbum Unbreakable (2004) que já seguia a mesma linha musical de engordar a aposentadoria fazendo o mesmo que todo mundo está fazendo na MTV. Aparentemente, fez sucesso com os fãs da fase clássica, sob o argumento de ser melhor que o lixo produzido nos anos anteriores [citation needed].
* Pois está claro que o Metallica não é uma banda de honest metal.
domingo, 29 de julho de 2007
Reino do Prejuízo
Alguém nos vende Brinquedos™ em um desenho animado fajuto
Alguém nos vende Carros™ no último filme de James Bond™, em breve nos cinemas
Alguém nos vende Modas™ através de uma estrela de TV
Alguém nos vende a Si Mesmo™ em um reality show que passa dos limites
Vida™ à venda!
Alguém poderia por favor me explicar o que aconteceu? Digo, primeiro pagamos por fast-food que nos deixa gordos e cansados. Depois pagamos por elevadores, para que não precisemos subir os três lances de escada até nossos apartamentos. Aí compramos essas bizarras máquinas Stairmaster™ para queimar calorias enquanto assistimos alguém fazendo comida de verdade na TV. Se isso tudo não faz de nós vencedores, não sei o que fará. Aposto que nos enforcaríamos se o mundo nos desse uma folga. E agora você acha que talvez deva ver um psiquiatra que o faça sentir-se vivo de novo – bom plano! Basta dizer a quem temos que pagar.
[...]
Bem-vindo ao planeta Terra™
Por favor, não nos pergunte quanto ele vale
Você perceberá que o mundo que encontrou
Está ligeiramente usado
Alguém nos vendeu cada uma das manchas
Se você quiser reclamar
Há uma espaço aberto às 18h
É quando o Cáucaso está ouvindo
[...]
Perceba, tudo não passa de uma questão de tempo e escolha. A fast-food nos permite um almoço rápido o bastante para ser espremido exatamente no tempo que quisermos. Os elevadores economizam um pouco mais de tempo, a Stairmaster™ permite escolher exatamente quando subir escadas. Tempo é algo muito importante atualmente, está se tornando uma doença. Acho que, de certa forma, é mesmo, já que vai nos matar ocasionalmente. Com todo o tempo e dinheiro que acumulamos aos custo dos outros, é de se supor que a entrada para o Inferno seja realmente cara. Por algum motivo, é importante ser o primeiro da fila.
Alguém nos vende Deus™, promoção leve-2-pague-1 com Culpa™
Alguém nos vende Guerra™ e o marketing parece ser o mesmo
Alguém nos vende Medo™ na TV todos os dias
Um formato para cada gosto; se o sabor for o certo, pagamos alegremente
Tudo à venda, tudo à venda, estamos todos à venda
Bem-vindo à única Terra™
Por favor, aproveite seu único nascimento
Você aprenderá a tomar mais do que doa
Comprando cicatrizes com as quais terá que viver
Alguém nos vendeu cada cicatriz
De alguma forma, elas fazem de nós o que somos
Todos queremos aquele espaço às 18h
Mas ninguém está realmente ouvindo
[...]
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Pain of Salvation, Scarsick (2007): Kingdom of Loss
Alguém nos vende Carros™ no último filme de James Bond™, em breve nos cinemas
Alguém nos vende Modas™ através de uma estrela de TV
Alguém nos vende a Si Mesmo™ em um reality show que passa dos limites
Vida™ à venda!
Alguém poderia por favor me explicar o que aconteceu? Digo, primeiro pagamos por fast-food que nos deixa gordos e cansados. Depois pagamos por elevadores, para que não precisemos subir os três lances de escada até nossos apartamentos. Aí compramos essas bizarras máquinas Stairmaster™ para queimar calorias enquanto assistimos alguém fazendo comida de verdade na TV. Se isso tudo não faz de nós vencedores, não sei o que fará. Aposto que nos enforcaríamos se o mundo nos desse uma folga. E agora você acha que talvez deva ver um psiquiatra que o faça sentir-se vivo de novo – bom plano! Basta dizer a quem temos que pagar.
[...]
Bem-vindo ao planeta Terra™
Por favor, não nos pergunte quanto ele vale
Você perceberá que o mundo que encontrou
Está ligeiramente usado
Alguém nos vendeu cada uma das manchas
Se você quiser reclamar
Há uma espaço aberto às 18h
É quando o Cáucaso está ouvindo
[...]
Perceba, tudo não passa de uma questão de tempo e escolha. A fast-food nos permite um almoço rápido o bastante para ser espremido exatamente no tempo que quisermos. Os elevadores economizam um pouco mais de tempo, a Stairmaster™ permite escolher exatamente quando subir escadas. Tempo é algo muito importante atualmente, está se tornando uma doença. Acho que, de certa forma, é mesmo, já que vai nos matar ocasionalmente. Com todo o tempo e dinheiro que acumulamos aos custo dos outros, é de se supor que a entrada para o Inferno seja realmente cara. Por algum motivo, é importante ser o primeiro da fila.
Alguém nos vende Deus™, promoção leve-2-pague-1 com Culpa™
Alguém nos vende Guerra™ e o marketing parece ser o mesmo
Alguém nos vende Medo™ na TV todos os dias
Um formato para cada gosto; se o sabor for o certo, pagamos alegremente
Tudo à venda, tudo à venda, estamos todos à venda
Bem-vindo à única Terra™
Por favor, aproveite seu único nascimento
Você aprenderá a tomar mais do que doa
Comprando cicatrizes com as quais terá que viver
Alguém nos vendeu cada cicatriz
De alguma forma, elas fazem de nós o que somos
Todos queremos aquele espaço às 18h
Mas ninguém está realmente ouvindo
[...]
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Pain of Salvation, Scarsick (2007): Kingdom of Loss
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Syriana (2005)
Lembro de como tive vontade de assistir Syriana - A Indústria do Petróleo tão logo li a sinopse. CIA, maquinações políticas ianques e todo o jogo de interesses acerca do petróleo alheio. Pois o maldito chegou e saiu sem deixar rastros, deve ter ficado uns dois dias em cartaz por aqui. (Figurativamente, lógico... nem sei se alguém se deu ao trabalho de pendurar o cartaz.) Usando uma de minhas superhabilidades mais famosas, esqueci o filme poucas semanas depois e sequer vi quando chegou às locadoras. Assisti hoje, na HBO. Todos amamos a HBO. Levantem, palmas para a HBO! Good.
Como é bom esperar tanto tempo por uma coisa e saborear a satisfação de alcançá-la! Não é o caso aqui: Syriana é uma merda*. A impressão que tive é que o grande objetivo do filme foi fazer um apanhado de todas as características do Oriente Médio que o público ocidental acharia peculiares e criar um cirquinho costurado com uma história rabiscada num guardanapo de bar. Todos os "fatos" são óbvios e superficiais. Toda a "trama" se baseia na manjada fórmula de apresentar personagens/situações aparentemente desconexos e surpreender o espectador no final. Com uma pequena inovação: no final, personagens/situações permanecem desconexos, salvo uma ou outra intersecção irrelevante que não diz nada. "Ah, eles quiseram dizer que tudo está interligado, que a responsabilidade é partilhada!" Não quiseram não.
O grande mérito do filme é o Oscar de melhor ator coadjuvante conferido ao Batman. Certamente a academia estava com poucas opções nessa categoria em 2005, até porque o Plantão Médico ganhou o prêmio mesmo sendo protagonista. Ele não atuou mal, vá lá; foi bastante correto. Mas isso também pode ser dito do Talentoso Ripley e do outro guri que ainda não fez personagens o bastante para ganhar um apelido.
Por ser tão básico em seu tratamento do assunto, o filme serviria no máximo como obra didática introdutória para exibição em escolas. Falharia em capturar a atenção dos estudantes, porém, uma vez que é longo, chato e não tem cenas de sexo. Não tem sequer insinuações de sexo. O mais próximo que chega disso são dois caras jogando futebol num campo de areia, conversando sobre o Homem-Aranha. Não me entendam mal, isso é até um ponto positivo quando quase qualquer outro filme precisa ter cenas de sexo, invariavelmente: (1) idealizado se vem da grande indústria, (2) visceral se independente. Estava apenas lembrando do que me fazia prestar atenção a um filme quando estava na escola.
* Haha! Estou rindo porque imaginei que o Hique estará rindo exatamente nesta parte. Ok, o filme não é tão ruim; é que não quis desperdiçar o efeito dramático da frase.
Como é bom esperar tanto tempo por uma coisa e saborear a satisfação de alcançá-la! Não é o caso aqui: Syriana é uma merda*. A impressão que tive é que o grande objetivo do filme foi fazer um apanhado de todas as características do Oriente Médio que o público ocidental acharia peculiares e criar um cirquinho costurado com uma história rabiscada num guardanapo de bar. Todos os "fatos" são óbvios e superficiais. Toda a "trama" se baseia na manjada fórmula de apresentar personagens/situações aparentemente desconexos e surpreender o espectador no final. Com uma pequena inovação: no final, personagens/situações permanecem desconexos, salvo uma ou outra intersecção irrelevante que não diz nada. "Ah, eles quiseram dizer que tudo está interligado, que a responsabilidade é partilhada!" Não quiseram não.
O grande mérito do filme é o Oscar de melhor ator coadjuvante conferido ao Batman. Certamente a academia estava com poucas opções nessa categoria em 2005, até porque o Plantão Médico ganhou o prêmio mesmo sendo protagonista. Ele não atuou mal, vá lá; foi bastante correto. Mas isso também pode ser dito do Talentoso Ripley e do outro guri que ainda não fez personagens o bastante para ganhar um apelido.
Por ser tão básico em seu tratamento do assunto, o filme serviria no máximo como obra didática introdutória para exibição em escolas. Falharia em capturar a atenção dos estudantes, porém, uma vez que é longo, chato e não tem cenas de sexo. Não tem sequer insinuações de sexo. O mais próximo que chega disso são dois caras jogando futebol num campo de areia, conversando sobre o Homem-Aranha. Não me entendam mal, isso é até um ponto positivo quando quase qualquer outro filme precisa ter cenas de sexo, invariavelmente: (1) idealizado se vem da grande indústria, (2) visceral se independente. Estava apenas lembrando do que me fazia prestar atenção a um filme quando estava na escola.
* Haha! Estou rindo porque imaginei que o Hique estará rindo exatamente nesta parte. Ok, o filme não é tão ruim; é que não quis desperdiçar o efeito dramático da frase.
domingo, 15 de julho de 2007
Gagá
Comprei uma dessas lasanhas para quem não sabe o que fazer. Dessas que basta pôr no forno; coloquei às 19:30.
Às 20:30 estava pronta. Tirei do forno e fui comer em frente à TV. Estava passando aquele filme sobre o Larry Flint com aquele ator moderadamente legal. Às 22:00 começou Celebrity Poker Showdown, às 22:30 fui à cozinha pegar um café.
Foi aí que lembrei de desligar o forno.
Às 20:30 estava pronta. Tirei do forno e fui comer em frente à TV. Estava passando aquele filme sobre o Larry Flint com aquele ator moderadamente legal. Às 22:00 começou Celebrity Poker Showdown, às 22:30 fui à cozinha pegar um café.
Foi aí que lembrei de desligar o forno.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Estranhos perigos
Roberto: Oi! Boa noite! Não abra o portão, não chega muito perto ainda, eu posso ser um ladrão!
Michel: ?
Roberto: Posso falar contigo? Olha, eu moro no sul da ilha, se quiser eu te dou referências, sem problemas. Eu te dou o número da minha casa, tu podes ligar e confirmar tudo...
Michel: Pois não? Do que você precisa?
Roberto: É rapidinho, viu? Eu vou te explicar. Eu estava viajando, peguei carona com um caminhoneiro, ele me deixou ali na BR. Olha, eu sei que é muito chato mesmo, se tu não quiseres me ajudar, tudo bem, eu vou entender, só não me manda embora ainda...
Michel: Tem como encurtar um pouco a história?
Roberto: Pois é, eu estava vindo lá de Curitiba, desde lá sem dinheiro, e...
Nessa hora, apontei no sentido da rua.
Roberto: Não, calma, é rapidinho!
Michel: Você se importa de me contar a história caminhando?
E andamos em direção ao ponto de ônibus. Desde o começo não achei que ele fosse um ladrão; estava mais bem vestido do que eu costumo me apresentar ao trabalho. E também era mais eloqüente do que eu sou no trabalho. E ele era igualzinho ao comandante Tucker da Enterprise. Como alguém poderia parecer mais confiável do que isso?
No caminho, ele elucidou alguns detalhes de sua vida que, sinceramente, não consigo imaginar porque alguém contaria a estranhos. O pai dele foi assassinado há dois anos pela madrasta, se lembro direito, para evitar que ele passasse alguns bens para o nome de outra pessoa. Algo assim. O Roberto foi intimado a testemunhar mas não compareceu; assim, a justiça expediu um mandado de prisão preventiva para tomar o testemunho na marra. "Eles te prendem de qualquer jeito, sabe? Mesmo que tu não tenhas cometido crime. Até esclarecer e resolver tudo dá trabalho." Talvez ele estivesse tentando justificar porque não tinha um trabalho no momento, mas ei! Relaxa. Quando estou tentando convencer alguém de que não sou ladrão, eu também começo a falar sobre os assassinatos em que minha família se envolveu e sobre o meu histórico com a polícia.
Ofereci uma nota de cinco.
Roberto: Olha, R$ 4,20 é tudo que eu preciso pra chegar em casa. Me empresta o bastante para ir até o Centro, lá eu me viro.
Michel: Relaxa.
Eu não estava com saco de contar moeda no escuro, e queria me despedir logo para pegar o mercado ainda aberto. Já me imaginei algumas vezes nessa situação: estar em um lugar que não faço muita idéia de onde fica, sem dinheiro ou telefone. O caso dele era um pouco pior, pois passava de dez da noite. A primeira coisa que me contou quando começamos a caminhar foi que 'o meu vizinho lá adiante' o havia maltratado como se fosse o cão e ameaçou chamar a polícia, por isso começou falando comigo daquele jeito. Imagina, chamar a polícia para levar o comandante Tucker!
Enfim, era o tipo de situação em que eu odiaria mortalmente estar, então nem hesitei em dar o dinheiro. Mas, pela reação, é possível que o dinheiro em si tivesse tanto valor quanto a própria disposição em ajudar. Cinco reais não é muito dinheiro. Digo: R$ 4,20 para chegar em casa de ônibus certamente é um roubo; I blame The Eye of Angela and the Darionopolis Project for that. Mas ele falava como se o mais improvável de tudo fosse conseguir todo o dinheiro necessário de uma pessoa só.
Roberto: Sabes onde fica o Espetinho de Ouro, em Barreiros? [Sei lá se era esse mesmo o nome.]
Michel: Não muito.
Roberto: É que... eu vou estar lá no dia 15 agora, fazendo um bico. Se tu quiseres aparecer lá, eu te devolvo esse dinheiro.
Michel: Relaxa, não esquenta não.
Roberto: Ou eu posso levar na tua casa depois, eu sei onde tu moras.
Foi exatamente nesse momento que minha espinha gelou. Alguém estava dizendo que queria ir à minha casa. Peraí. Eu confiei em você, eu te ajudei, você não tem nenhum motivo para ameaçar ir à minha casa! Odeio gente na minha casa, odeio parentes na minha casa. Só aceito pessoas realmente próximas lá. E certamente, com convite.
Michel: Cara, RELAXA, não precisa. [No total, eu devo tê-lo mandado relaxar umas quatro vezes em três minutos de conversa.]
Fiz menção de que tinha que ir. Ele apertou a minha mão com vontade e agradeceu. Mostrei a ele onde ficava o ponto de ônibus e corri em direção ao mercado. Temi que ele estivesse pensando em virar meu amigo.
Michel: ?
Roberto: Posso falar contigo? Olha, eu moro no sul da ilha, se quiser eu te dou referências, sem problemas. Eu te dou o número da minha casa, tu podes ligar e confirmar tudo...
Michel: Pois não? Do que você precisa?
Roberto: É rapidinho, viu? Eu vou te explicar. Eu estava viajando, peguei carona com um caminhoneiro, ele me deixou ali na BR. Olha, eu sei que é muito chato mesmo, se tu não quiseres me ajudar, tudo bem, eu vou entender, só não me manda embora ainda...
Michel: Tem como encurtar um pouco a história?
Roberto: Pois é, eu estava vindo lá de Curitiba, desde lá sem dinheiro, e...
Nessa hora, apontei no sentido da rua.
Roberto: Não, calma, é rapidinho!
Michel: Você se importa de me contar a história caminhando?
E andamos em direção ao ponto de ônibus. Desde o começo não achei que ele fosse um ladrão; estava mais bem vestido do que eu costumo me apresentar ao trabalho. E também era mais eloqüente do que eu sou no trabalho. E ele era igualzinho ao comandante Tucker da Enterprise. Como alguém poderia parecer mais confiável do que isso?
No caminho, ele elucidou alguns detalhes de sua vida que, sinceramente, não consigo imaginar porque alguém contaria a estranhos. O pai dele foi assassinado há dois anos pela madrasta, se lembro direito, para evitar que ele passasse alguns bens para o nome de outra pessoa. Algo assim. O Roberto foi intimado a testemunhar mas não compareceu; assim, a justiça expediu um mandado de prisão preventiva para tomar o testemunho na marra. "Eles te prendem de qualquer jeito, sabe? Mesmo que tu não tenhas cometido crime. Até esclarecer e resolver tudo dá trabalho." Talvez ele estivesse tentando justificar porque não tinha um trabalho no momento, mas ei! Relaxa. Quando estou tentando convencer alguém de que não sou ladrão, eu também começo a falar sobre os assassinatos em que minha família se envolveu e sobre o meu histórico com a polícia.
Ofereci uma nota de cinco.
Roberto: Olha, R$ 4,20 é tudo que eu preciso pra chegar em casa. Me empresta o bastante para ir até o Centro, lá eu me viro.
Michel: Relaxa.
Eu não estava com saco de contar moeda no escuro, e queria me despedir logo para pegar o mercado ainda aberto. Já me imaginei algumas vezes nessa situação: estar em um lugar que não faço muita idéia de onde fica, sem dinheiro ou telefone. O caso dele era um pouco pior, pois passava de dez da noite. A primeira coisa que me contou quando começamos a caminhar foi que 'o meu vizinho lá adiante' o havia maltratado como se fosse o cão e ameaçou chamar a polícia, por isso começou falando comigo daquele jeito. Imagina, chamar a polícia para levar o comandante Tucker!
Enfim, era o tipo de situação em que eu odiaria mortalmente estar, então nem hesitei em dar o dinheiro. Mas, pela reação, é possível que o dinheiro em si tivesse tanto valor quanto a própria disposição em ajudar. Cinco reais não é muito dinheiro. Digo: R$ 4,20 para chegar em casa de ônibus certamente é um roubo; I blame The Eye of Angela and the Darionopolis Project for that. Mas ele falava como se o mais improvável de tudo fosse conseguir todo o dinheiro necessário de uma pessoa só.
Roberto: Sabes onde fica o Espetinho de Ouro, em Barreiros? [Sei lá se era esse mesmo o nome.]
Michel: Não muito.
Roberto: É que... eu vou estar lá no dia 15 agora, fazendo um bico. Se tu quiseres aparecer lá, eu te devolvo esse dinheiro.
Michel: Relaxa, não esquenta não.
Roberto: Ou eu posso levar na tua casa depois, eu sei onde tu moras.
Foi exatamente nesse momento que minha espinha gelou. Alguém estava dizendo que queria ir à minha casa. Peraí. Eu confiei em você, eu te ajudei, você não tem nenhum motivo para ameaçar ir à minha casa! Odeio gente na minha casa, odeio parentes na minha casa. Só aceito pessoas realmente próximas lá. E certamente, com convite.
Michel: Cara, RELAXA, não precisa. [No total, eu devo tê-lo mandado relaxar umas quatro vezes em três minutos de conversa.]
Fiz menção de que tinha que ir. Ele apertou a minha mão com vontade e agradeceu. Mostrei a ele onde ficava o ponto de ônibus e corri em direção ao mercado. Temi que ele estivesse pensando em virar meu amigo.
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