quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Correndo com tesouras

Não sou um bárbaro*. Posso ser completamente inepto para algumas coisas, uma negação em cálculos rápidos, um cavalo nas relações sociais, um estorvo para o meu time em qualquer esporte... mas não sou um bárbaro. Não acredito em explicações divinas ou evolutivas para a superioridade da raça humana; se você se comporta como animal*, então é animal. Se quer algum respeito adicional, se quer que a sua vida tenha mais valor que a de um frango de granja, então faça por merecer.

Pois o meu cabelo estava no limite, digno de figuração em filme do Conan. (Em uma das tribos inimigas.) Se eu vou continuar me comportando mal em tantos pontos, ao menos preciso ter cabelo de gente. De preferência, cortado por alguém que saiba o que está fazendo, em um salão de verdade, que não fique no fundo de um quintal. ("Salão de verdade", esse território desconhecido... pois também não sou tão civilizado assim.) Após uns 20 dias de pânico sem saber onde cortar, fui pedir ajuda para minha irmã.

Clau: Ah, eu conheço um monte de gente que corta no Zé.
Michel: Zé?
Clau: É.
Michel: Mas... Zé? Ele é gay?
Clau: É sim.
Michel: Com esse nome? Tem certeza? Zé não é nome de gay. O que me garante que ele sabe cortar cabelo?
Clau: Todo mundo corta com ele, deixa ver se ele tem horário pra hoje. (...) Só para amanhã. Engraçado, ele atende o telefone como "José Carlos Cabeleireiro".
Michel: José Carlos? Não pode. Eu não corto lá!

Acabei marcando horário (que coisa tão civilizada, marcar horário) em um salão que fica junto ao Giassi. Assim que cheguei, a menina me entregou uma comanda com meu nome e o do profissional: Wando. Porra, ISSO SIM é nome de cabeleireiro bom. Wando, com W; agora senti firmeza. Expliquei para ele a desgraça que é o meu cabelo cortado meio curto e a resposta foi um olhar de pena. Pena mesmo, dava pra sentir a dor nos olhos dele. "Mas eu vou dar um jeito, não se preocupe." Uai, eu estava lá justamente pra isso, manda ver. Eu ficava quietinho, obedecendo aos comandos de 'vamos lavar agora' e 'vamos voltar para a cadeira'. E tudo estava muito bem, até que ele tirou uma outra tesoura e começou a mastigar o cabelo com ela em pontos aparentemente aleatórios, por baixo da massa de fios. Logo depois, o pente estava arrancando cabelos aos montes. "O que é isso? ELE É LOUCO, ele-não-sabe-o-que-está-fazendo-ele-não-sabe-o-que-está-fazendo-ele-não-sabe-o-que-está-fazendo, oh noes..." Minha irmã explicou depois que não é nada tão cabuloso assim, e provavelmente foi para o melhor. Na hora, porém, o sangue bárbaro começou a ferver e por pouco não subi na cadeira e comecei a chutar o espelho. Não fiz nada disso, não fui preso, nem terminei com cabelo cortado pela metade.

Mas ficou a mesma bosta de sempre.

* No sentido mais comum da palavra.